Por uma vida melhor na mídia

Nos últimos dias, muito tem repercutido na mídia o caso do livro didático de língua portuguesa Por Uma Vida Melhor, (Coleção Viver, aprender), de autoria de Heloísa Cerri Ramos e outros. O livro foi crucificado por “ensinar a falar errado”, tal como assevera a coluna Poder Online, do portal IG , além de muitos outros veículos.

Ferdinand de Saussure, criador da linguística moderna, já dissera, no início do século XX, em seu Curso de Linguística Geral, que “não há um domínio onde tenha germinado ideias tão absurdas, preconceitos, miragens ficções” (p. 14) como é o âmbito da linguagem. Pelo que se viu, nos últimos dias, a mídia brasileira simplesmente repetiu e reforçou velhos preconceitos a respeito dessas questões. Por alguma razão (ignorância, preconceito, reacionarismo… seja lá o que for), grande parte da mídia brasileira preferiu condenar o livro adotado para quase 500 mil alunos que, segundo a coluna do IG, “ensina a falar errado”. Lamentável. Diferentemente da cobertura da grande maioria da mídia brasileira, chamo atenção para o que fez a Revista Carta Capital , que deu voz a especialistas do tema e não simplificou a questão.

Vou me deter aqui a uma reportagem de uma série sobre a educação no Brasil exibida pelo Jornal Nacional em 13/05/2011,  e também a fazer referência aos comentários de Alexandre Garcia e Sérgio Nogueira em duas matérias sobre o tema exibidas pelo Bom Dia, Brasil levadas ao ar em 17/05/2011.

Na primeira, Fátima Bernardes e William Bonner lêem a cabeça da reportagem:

Um livro de português distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação. Na semana em que o Jornal Nacional tem discutido os maiores problemas do Brasil na educação, os argumentos da autora do livro e as reações que esses argumentos provocaram estão na reportagem de Júlio Mosquéra.

É curioso que o JN tenha dito que “um livro de português” tem determinada postura. Não se trata de um livro isoladamente. O telejornal, ao construir assim o texto, ignora a produção de conhecimento nos últimos 30, 40 anos no Brasil no âmbito da linguística e, mais especificamente, no ramo da sociolinguística. Além disso, o que deve estar em questão não são apenas os argumentos da autora (que, aliás, não é a única autora do livro), mas de um extenso grupo de professores e pesquisadores que desenvolvem investigações no campo da linguagem e sua aplicação ao ensino da língua materna. As reações (negativas) a esses argumentos, a que se referem Fátima Bernardes e William Bonner, não estão no texto da reportagem de forma explícita, mas, como veremos, na forma como esse texto foi construído. Vejamos o começo do off do jornalista Julio Mosquéra:

A defesa de que o aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta está na página 14 do livro “Por uma vida melhor”. O Ministério da Educação aprovou o livro para o ensino da língua portuguesa a jovens e adultos nas escolas públicas. Ele apresenta a frase: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, com a explicação: “Na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural”. “A língua portuguesa admite esta construção”. A orientação aos alunos continua na página 15: “Mas eu posso falar ‘os livro’?”. E a resposta dos autores: “Claro que pode. Mas com uma ressalva, ‘dependendo da situação a pessoa corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico’”.

No trecho acima, observamos que o jornalista se limita a destacar  quatro frases de um livro, mas não quatro frases quaisquer: quatro frases de efeito! Para quem se der ao trabalho de ler o capítulo na íntegra, disponibilizado no site da Faculdade de Educação da UFMG, poderá perceber que ele não estimula a falar errado, nem se furta do principal objetivo do ensino de língua portuguesa nas escolas que é ensinar a variedade culta da língua. Qualquer pessoa, por volta dos três anos, já é um falante da língua materna, isto é, já tem uma gramática internalizada. Assim, seria um contra-senso dizer que o livro ensine a dizer “os livro” uma vez que dessa regra todos nós já estamos de posse. Digo gramática, pois gramática não se limita à gramática dos gramáticos, mas gramática no sentido de qualquer estrutura de regras subjacentes a uma língua ou variedade linguística. No português falado no Brasil, e os autores estão cobertas de razão, basta que o plural esteja no artigo. É possível se dizer “os livro”, mas nunca “o livros”. A regra subjacente nesse caso é que o plural seja marcado no artigo. Mas não é essa regra que a escola, com base naquele livro, vai ensinar. O livro, ao contrário, mostra que existem outras variedades da língua (tanto na modalidade escrita, quanto na falada), pois é preciso reconhecer e respeitar o outro, a alteridade. Mas, além disso, é imprescindível dar a esse outro que não é falante da norma culta da língua portuguesa e nem vem de uma família com hábitos de leitura o direito de dominar essa variante com o intuito de ter acesso a bens culturais e, mais que isso, ter possibilidade de ascender socialmente via educação.

Ao destacar o “preconceito linguístico” o texto de Mosquéra também foi muito astuto no sentido de criar uma imagem negativa do livro. Em tempos de bullying, homofobia e etc. tudo pode se tornar uma questão de preconceito. Inclusive o linguístico. Mais um argumento para depreciar o livro em questão, com base na ideia de que, na arena do ensino de língua portuguesa, vale qualquer coisa para se evitar o dito preconceito, inclusive não ensinar a norma culta. Sobre esse tema, existe um livro de Marcos Bagno, lançado em 1999 e que já chegou à 50o edição, chamado exatamente Preconceito Linguístico. Seria conveniente que os jornalistas que cobrem educação (e também aqueles que não cobrem) lessem esse livro. Certamente, esses profissionais estariam prestando um serviço de maior qualidade ao falar de livros didáticos, de ensino de língua portuguesa, de linguagem e de educação em geral.

É interessante também notar que Mosquéra mais parafraseia a autora do livro dizendo:

Heloísa Ramos, uma das autoras do livro, disse que a intenção é mostrar que o conceito de correto e incorreto deve ser substituído pela ideia de uso adequado e inadequado da língua. Uso que varia conforme a situação. Ela afirma que não se aprende o português culto decorando regras ou procurando o significado de palavras no dicionário.

Do que lhe dá voz diretamente:

O ensino que a gente defende e quer da língua é um ensino bastante plural, com diferentes gêneros textuais, com diferentes práticas, diferentes situações de comunicação para que essa desenvoltura linguística aconteça.

Na reportagem, dá-se voz, ainda, a outra sociolinguista, Raquel Dettoni, que (segue o texto da reportagem de Mosquéra):

concorda que é preciso respeitar o falar popular, que não pode ser discriminado. Mas ela enfatiza que a escola tem um objetivo maior, que é ensinar a língua portuguesa que está nas gramáticas.

Agora cabe a pergunta. Em que momento o livro Por uma vida melhor disse o contrário? Noutros termos, criam-se os famosos dois lados do jornalismo. Um que diz uma coisa e o outro lado que discorda. E enfatizo: cria-se apenas esse efeito, pois em momento algum a posição dos autores do livro e a da sociolinguista em questão são divergentes. Mas existe, de forma subjacente e ancorada na estrutura do fazer jornalístico, o “dar voz às duas partes”. Assim, ao fazê-lo, cria-se a impressão de que, inclusive os linguistas são contra o Por uma vida melhor. Isso não é verdade.  A reportagem também traz a voz do Ministério da Educação que defende o livro:

O Ministério da Educação informou em nota que o livro “Por uma vida melhor” foi aprovado porque estimula a formação de cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade. Segundo o MEC, é preciso se livrar do mito de que existe apenas uma forma certa de falar e que a escrita deve ser o espelho da fala. O Ministério da Educação disse que a escola deve propiciar aos alunos jovens e adultos um ambiente acolhedor no qual suas variedades linguísticas sejam valorizadas e respeitadas, para que os alunos tenham segurança para expressar a “sua voz”.

Mas a reportagem termina com a fala da sociolinguista Raquel Dettoni, que, pela construção do texto é uma voz divergente da do MEC e da voz dos autores do livro. E, finalizando, Fátima Bernardes afirma:

O Ministério da Educação informou ainda que a norma culta da língua portuguesa será sempre a exigida nas provas e avaliações.

É interessante percebermos que o fazer jornalístico que, supostamente se funda nos pilares da objetividade e neutralidade, de fato cria, à primeira vista, esse efeito. A reportagem deu voz a todas as partes envolvidas no caso. Mas que vozes são essas? Do livro foram retiradas poucas frases descontextualizadas. Um autor da Análise do Discurso Francesa, Dominique Maingueneau, na obra Cenas da Enunciação , fala no capítulo “Citação e Destacabilidade”, no conceito de “enunciados destacados”, que é justamente quando alguém destaca um enunciado de um outro alguém e traz para o seu próprio enunciado.  Ao fazê-lo, o autor do texto, tem uma larga margem de manobra para dar o tom e o sentido que quiser, uma vez que esse enunciado destacado se encontra dentro de outro texto, ou seja, dentro das coerções significativas desse texto maior. Em outras palavras, o texto de Mosquéra, ao destacar poucas frases de Por uma vida melhor e localizá-las no todo da reportagem, que, para todos os efeitos, dá voz a todas a partes, cria a imagem negativa do livro, a qual se apreende pela construção do sentido dessa reportagem. E tudo isso seguindo as máximas do jornalismo: “objetividade e neutralidade”. Desnecessário dizer que se trata de um efeito de neutralidade, uma objetividade apenas no parecer.

Para finalizar essa pequena leitura da reportagem do JN, salientamos que não se trata “de um livro de português”, conforme marcou a cabeça da reportagem, mas de um livro selecionado por um programa chamado Programa Nacional do Livro Didático, composto por professores pesquisadores doutores de diversas universidades brasileiras.  Quem quiser conhecer melhor como se selecionam esses livros, convido a uma visita ao site do PNLD.

Quero chamar ainda atenção para uma série de reportagens sobre a educação no Brasil exibida pelo Jornal Nacional. Trata-se de uma excelente iniciativa de fiscalizar como anda a educação em todas as regiões do País. Mas um certo “argumento de autoridade” me incomodou. Durante as reportagens, a equipe de jornalismo foi acompanhada de um “especialista em educação”, Gustavo Ioschpe, que ia comentando o porquê de certas escolas serem bem ou mal sucedidas. Conhecia Ioschpe  por sua coluna na Revista Veja, e resolvi pesquisar o quão “especialista em educação” ele é. Com uma rápida busca no Google, sou levado à página sobre Ioschpe na Wikipédia. Trago aqui um trecho da definição da Wikipédia sobre Ioschpe:

Gustavo Ioschpe (Porto Alegre, 1977) é um economista com duas graduações (em Ciência política e Administração estratégica) pela Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, e mestrado em Economia internacional e Desenvolvimento econômico, pela Universidade Yale, nos Estados Unidos da América. Foi um dos mais jovens colunistas do jornal Folha de São Paulo, entre 1996 e 2000, e desde 2006 é colaborador da revista Veja. Foi colaborador do Yale Daily News, da revista Educação e de outros veículos, como as revistas República, Bravo! e Carta Capital. É autor do livro A ignorância custa um mundo, ganhador do Prêmio Jabuti de 2005. Nesse livro e em seus artigos para a imprensa, Ioschpe aborda a temática da educação brasileira através da economia da educação (Education Economics), área da economia pouco conhecida no Brasil.

É muito, muito curioso, pois, como são escolhidos, por alguma razão, os autores de argumentos de autoridade pela mídia. No caso, o autor do argumento de autoridade em educação é, pasmem, um economista! Um economista, mais especificamente, um “economista da educação”. De certo modo, Gustavo Ioschpe é condecorado pelo JN com o título de a autoridade máxima em educação no Brasil. Vejam o quão ideológico é o fato de o JN, com sua força, audiência e importância, dar voz a um economista tido como “especialista em educação” e transformá-lo no nome de mais alta representatividade no assunto. Leia-se: educação via economia da educação. A educação, por essa perspectiva, não é um direito inalienável, garantido por constituição, mas se refere, antes, à gestão de verbas no âmbito escolar. A educação, contudo, com toda sua complexidade, não se restringe, certamente, a seu aspecto econômico. Por isso, pergunto-me por que razão não convidaram educadores e pesquisadores em educação? Na área de educação e linguagem há pesquisadores que estudam essa questão há dezenas de anos nas universidades brasileiras. Em reação ao debate sobre o livro, a Faculdade de Educação da UFMG sugeriu que fossem consultados nomes, de fato, relevantes quando o assunto é educação e linguagem. Faço questão de transcrever esses nomes aqui:

Marcos Bagno
Doutor em Linguística pela USP e professor da UnB

Magda Becker Soares
Professora emérita da UFMG, especialista em alfabetização e letramento

Sírio Possenti
Professor associado no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL‐Unicamp)

Marco Antônio de Oliveira
Doutor em Linguística pela Universidade da Pennsylvania, professor da PUC‐MG

Egon Rangel de Oliveira
Professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC‐SP

Rodolfo Ilari
Professor de semântica da Unicamp

Milton do Nascimento
Doutor em Linguística pela Universidade de Paris VIII, St. Denis e professor de Linguística da PUC‐MG

Maria Cecília Mollica
Professora titular de Linguística da UFRJ

Ataliba de Castilho
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP)

Maria José Nóbrega
Consultora especialista em ensino de língua portuguesa

Acrescento ainda dois nomes extremamente importantes:

José Luiz Fiorin

Professor associado do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo (USP)

Diana Luz Pessoa de Barros

Professora titular do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo (USP)

Conforme podemos ver, esses são autores de argumentos de autoridade sobre essa questão, que se dedicam há anos ao estudo da língua. Em relação ao tema da educação e de todos as suas interfaces, pergunto-me se o JN já ouviu falar na ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Na página da ANPED  podem ser consultados todos os Grupos de Trabalho, com o nome e o e-mail de cada um de seus coordenadores. Cada Grupo de Trabalho se dedica à pesquisa de um tema especifico em Educação. A nenhum deles foi dada voz nessa série de reportagens, salve inobservância de minha parte. Faço também questão de reproduzir aqui essa lista e mostrar que ser especialista em “economia da educação” não é o suficiente para  explicar e dar soluções para todos os problemas da educação do Brasil:

GT

NOME

INSTITUIÇÃO

UF

E-MAIL

GT02 – História da Educação

MARIA TERESA SANTOS CUNHA

 UDESC

SC

mariatsc@gmail.com

GT03 – Movimentos Sociais, Sujeitos e Processos Educativos

MARIA ANTONIA DE SOUZA

 UTP

PR

masouza@uol.com.br; maria.antonia@pq.cnpq.br

GT04 – Didática

PURA LUCIA OLIVER MARTINS

 PUC

PR

pura.oliver@pucpr.br

GT05 – Estado e Política Educacional

ANDREA BARBOSA GOUVEIA

 UFPR

PR

andrea-gouveia@uol.com.br

GT06 – Educação Popular

DANILO ROMEU STRECK

UNISINOS

RS

dstreck@unisinos.br

GT07 – Educação de Crianças de 0 a 6 anos

MARIA LETÍCIA BARROS PEDROSO NASCIMENTO

USP

SP

letician@usp.br

GT08 – Formação de Professores

JOANA PAULIN ROMANOWSKI

 PUC

PR

joana.romanowski@pucpr.br

GT09 – Trabalho e Educação

MARIA CLARA BUENO FISCHER

UFRGS

RS

clarafis@cpovo.net

GT10 – Alfabetização, Leitura e Escrita

CLAUDIA MARIA MENDES GONTIJO

UFES

ES

clammgont@gmail.com

GT11 – Política de Educação Superior

AFRÂNIO MENDES CATANI

USP

SP

amcatani@usp.br

GT12 – Currículo

CARLOS EDUARDO FERRACO

UFES

ES

ferraco@uol.com.br

GT13 – Educação Fundamental

CARMEN SANCHES SAMPAIO

UNIRIO

RJ

carmensanches.unirio@gmail.com

GT14 – Sociologia da Educação

MARIA DA GRACA JACINTHO SETTON

USP

SP

gracaset@usp.br

GT15 – Educação Especial

RITA DE CASSIA BARBOSA PAIVA MAGALHAES

UFRN

RN

ritafora@hotmail.com

GT16 – Educação e Comunicação

GUARACIRA GOUVEA DE SOUSA

UNIRIO

RJ

guaracirag@uol.com.br

GT17 – Filosofia da Educação

RALPH INGS BANNELL

PUC-Rio

RJ

ralph@puc-rio.br

GT18 – Educação de Pessoas Jovens e Adultas

EDNA CASTRO DE OLIVEIRA

UFES

ES

oliveiraedna@yahoo.com.br

GT19 – Educação Matemática

MARCELO ALMEIDA BAIRRAL

UFRRJ

RJ

mabairral@hotmail.com

GT20 – Psicologia da Educação

MARILDA GONCALVES DIAS FACCI

UEM

PR

marildafacci@wnet.com.br

GT21 – Educação e Relações Étnico-Raciais

PAULO VINICIUS BAPTISTA DA SILVA

UFPR

PR

paulovbsilva@uol.com.br

GT22 – Educação Ambiental

MARTHA TRISTÃO

UFES

ES

marthatristao@terra.com.br

GT23 – Gênero, Sexualidade e Educação

CLAUDIA MARIA RIBEIRO

UFLA

MG

ribeiro@ufla.br

GT24 – Educação e Arte

MONIQUE ANDRIES NOGUEIRA

UFRJ

RJ

andries@terra.com.br

Pela extensão dessa lista de nomes, podemos concluir que não há poucos profissionais gabaritados para opinar sobre o tema da educação no Brasil.  A mídia, no entanto, parece preferir trazer supostos especialistas em educação e gramatiqueiros midiáticos, tal como mostrou o Bom Dia, Brasil, ao trazer um comentário de Sérgio Nogueira, que segundo a Wikipédia, é:

É formado em Letras pela UFRGS, com mestrado em Língua Portuguesa pela PUC-Rio, e tem mais de 30 anos de experiência em sala de aula. Utiliza humor e fatos cotidianos para ensinar o uso correto da língua. Com isso, ganhou espaço e destaque nos principais veículos de comunicação do Brasil. Atualmente, é instrutor e consultor de português do jornalismo da TV Globo, Globo News, SporTV, Globosat, jornais O Globo, Extra e Expresso, do Sistema Globo de Rádio (Rádio Globo e CBN), da Globo.com.

O “especialista”, em comentário no Bom dia, Brasil, soltou as seguintes “pérolas”:

O que me irrita mais nessa história é que se fala tanto em preconceito e discriminação, mas acho que a discriminação maior é acreditar que a criança é incapaz de aprender plural e concordar verbo com sujeito. O ‘Soletrando’ [quadro do ‘Caldeirão do Huck’] está provando isso. Crianças são capazes de aprender questões ortográficas mais complexas.

Todos pagamos pelas escolas públicas. Você pagaria para que seu filho vá à escola, que deveria ser transformadora, para falar uma língua que não será precisa, que ele pode aprender a falar sozinho?

Sobre os comentários de Nogueira não creio que seja o caso de repetir o que disse no começo deste post. Faço, no entanto, questão de indicar alguns textos certamente esclarecedores quanto à adoção do livro Por uma vida melhor, o papel da linguística, a questão das variantes linguísticas, relação adequação/inadequação ao contexto de uso linguístico, importância de se ensinar a norma culta, o ensino da norma culta como forma de acesso a bens culturais e ascensão social etc.:

1) Marcos Bagno, professor doutor da UnB e um dos autores mais conhecidos na área sociolinguística do Brasil afirma: “Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua” A íntegra do texto de Bagno pode ser lida aqui.

2) A Faculdade de Educação da UFMG (FAE) também se pronunciou, oferecendo maiores esclarecimentos em relação à adoção do livro. A FAE/UFMG disponibilizou também em sua página o famigerado capítulo, na íntegra, para quem quiser se dar ao trabalho de ouvir mais do que duas frases descontextualizadas da obra Por Uma Vida Melhor. E mais: deu-se ao trabalho de oferecer um link com informações voltadas exclusivamente à imprensa que cobre o tema da educação. Veja aqui.

3) Ressaltamos ainda a declaração da Presidente da Associação Brasileira de Linguística em defesa de Por Uma Vida Melhor, ver post anterior.

4) Faço ainda referencia ao texto “Aceitam tudo”, do professor Sírio Possenti, da Unicamp, que além de falar sobre o livro em questão, esclarece brilhantemente o papel do linguista, publicado no portal Terra. Acesse aqui.

5) A autora do Livro em questão, Heloisa Cerri Ramos, também se pronuncia. Veja aqui.

Para terminar, saliento o comentário do, assim como Sérgio Nogueira, o também “especialista” em Educação Alexandre Garcia , que deu a seguinte declaração contrária à adoção de Por uma vida melhor: “Quando eu tava (sic) no primeiro ano do grupo escolar e a gente falava errado a professora nos corrigia”.

Muito perspicazmente, Sírio Possenti, em artigo indicado acima, afirma:

Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: “quando eu TAVA na escola…”. Uma carta de leitor que criticava a forma “os livro” dizia “ensinam os alunos DE que se pode falar errado”. Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse “a língua é ONDE nos une” e Monforte perguntou “Onde FICA as leis de concordância?”. Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!

Sem mais por hoje.


23 Comentários on “Por uma vida melhor na mídia”

  1. Muito informativo, vou ler o artigo do Possenti.

  2. Camila Ribeiro disse:

    Mas é um orgulho esse menino!! Certo?!

  3. Natália Guirado disse:

    Conrado, parabéns! Este é o melhor e o mais completo texto que li sobre a polêmica das últimas semanas.

    • Puxa, Natália, seu comentário me deixou super feliz. Precisamos mesmo dar mais visibilidade a esse tema, inclusive como forma de ação política. O combate à ignorância quanto ao ofício do linguista deve ser de toda nossa classe! Um beijo.

  4. Tatiane Guest disse:

    Parabens mocinho! O blog mais acadêmico que já vi!

  5. Marise Pontes Marques disse:

    Saber é mesmo coisa muito bacana!
    Saber como uma cozinheira experiente, daquela que faz a comida até de olhos fechados.
    Obrigada por esta sagrada escritura.

  6. João Kogawa disse:

    Gostei Conrado, mais do que criticar a postura dos jornalistas, o que seria um tanto “pueril” da parte dos linguistas, você desnuda a materialidade verbal para mostrar de que forma é construída a rede de dizeres em torno do livro didático. Achei a análise bastante fina e as tabelas com os nomes dos professores pertencentes ao grupo de pesquisa foi bastante interessante. Identifiquei-me bastante com seu texto… Félicitations mon cher…

  7. Aparecida Furtado disse:

    Eu adorei, Conrado! Como ficou completo seu texto! Li todos o links e qto argumento de autoridade usou, heim? Nesta sua página encontrei tudo que queria a respeito da temática em questão. Obrigada! Um gde abraço. Cida.

    • Cida, fico muito feliz que tenha gostado. Essa deve ser uma luta de todos nós em prol da não-ignorância a respeito de questões do âmbito da língua/linguagem. Um beijo.

  8. eliane marta teixeira lopes disse:

    Caro Conrado, sou professora da FaE-Ufmg e tem nos preocupado muito a relação imprensa educação o que você certamente fez nesse texto com propriedade e brilhantemente, pondo os pingos nos iis! Mais do que parabéns quero dizer obrigada! eliane marta

    • Cara Professora Eliane Marta:
      É uma honra receber essas palavras, ainda mais sendo as de uma professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG. Agradeço-lhe pela visita ao Mídia & Sentido e pelo incentivo. Um abraço, Conrado.

  9. Patrícia Bernardes Ferreira disse:

    Caro Conrado,
    com muita alegria li seu artigo. E sinto-me mais respaldada ainda na lida diária como professora de português, em uma escola pública de BH. Vou discutir o assunto com meus alunos adolescentes. Estamos montando um jornal estudantil e, certamente, falaremos sobre o tema com a comunidade.Obrigada pelas palavras lúcidas. Um abraço. Patrícia

  10. Contraponto – “Por uma vida melhor”

    Creio que, na confusão – adoro confusões linguísticas -, as pessoas se esqueceram de quão antiga é a discussão sobre a língua falada e a escrita: “A Gramatiquinha” do Mário de Andrade, os percalços de José de Alencar, Monteiro Lobato antes das inúmeras correções, Guimarães Rosa (Jeito ousado de escrever, quem de nós não leu pelo menos um trecho? “Viver é etecetera”). Estão fazendo uma tremenda confusão! Afinal em Literatura você pode fazer quase tudo. Estamos engolindo sapos. Em 1984 li João Wanderley Geraldi e resolvi ver no que iria dar. Na mesma época surgiu a música “A gente somos inútil”. Aproveitei para trabalhá-la. “Inúteu!” O visual cantava mais alto, estudantes passaram a escrever “A gente somos” e “inúteu”, Geraldi continuou nos livros a nos ensinar a corrigir redações etecetera e tal. O livro da equipe de mais de 10 autores/as, publicado em 2009, “Por uma vida melhor”, não ensina a “escrever errado”. Tem gramática demais, teoria demais, nada de charges e quadrinhos, enfim: um porre. Caímos no “conto da carochinha”. Não é anarquia da linguagem como andam dizendo, se fosse eu até defenderia. E tem gente grande se dando ao luxo de ler uma linha para tecer considerações, ao invés de observar e julgar a metodologia, ou até mesmo ouvir os CDs que vêm junto aos livros da coleção. No livro é sensata a frase, sem concordância, que é trabalhada pela mídia no momento, sem verificar o contexto e como pedem para corrigi-la. Ora, ora! E ficam por aí repetindo: “Acontece que milhões de brasileirinhos chegam à escola, falando segundo as regras da variedade popular. Por isso, são ridicularizados e humilhados.”. Acontece que aquele livro não é para “brasileirinhos”, o livro se destina a jovens e adultos (EJA) e o ponto citado está de acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais). Acontece que crianças têm a sua maneira de falar (diferente do adulto), o povo de minha terra idem, o da sua também, zombam de mineiros/as até em camisetas, uai! Apesar da zombaria há certo amor pelo falar roseano, paraibano, paulistano, gaúcho, não é tchê? Língua escrita é diferente de falada, é diferente até de outra língua escrita: do internetês. O negócio não é simples assim. E enquanto discutimos o óbvio vamos permitindo que encubram políticas que deveriam ser públicas. O livro é ruim, e não é pelo motivo da apelação, mas por outros motivos. Leia-o, tente a coleção (quatro livros): aproximadamente mil páginas com todas as matérias. Advirto que há piores por aí! Comecem pelos livros de História do Ensino Fundamental.

    Quem conta dará de?!
    * Modesta Trindade é professora aposentada, alfabetizadora, pedagoga.
    ………………………………..

    P.S. Conrado, achei o seu texto espetacular, o melhor que já li até o momento. Não é qualquer um que faz pesquisa tão consistente. Continue nos presenteando.
    “Ita est”.

  11. Prezado Conrado:

    Coordeno um Projeto que se chama Pensar a Educação, Pensar o Brasil – 1822/2022. Nele temos um programa de Rádio e fazemos, sistematicamente, uma análise da cobertura feita pela mídia sobre a educação. A sua análise é primorosa e demonstra o que é temos percebido há tempos (mas, confesso, não conseguíamos dizer com tamanha clareza e profundidade!): o elitismo, a pouca profundidade das análises e a falta de um mínimo diálogo com o que é produzido pelos(as) pesquisadores(as) da área (para dizer pouco). Obrigado pelo trabalho e parabéns!

    Grande abraço.

    Luciano Mendes

    • Caro Professor Luciano Mendes:
      É uma satisfação muito grande receber seu depoimento e saber que nosso posicionamento está alinhado com os maiores centros de pesquisa do Brasil. O Mídia & Sentido agradece sua visita!

  12. Maria Conceição Azevedo disse:

    sabe, me parece que alguém não ‘vendeu’ o que precisava! Obrigada,


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