Conferência virtual sobre a repercussão do Caso Nardoni

 

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Realizada pelo STIS – Seminários Teóricos Interdisciplinares do SemioTec, da UFMG, o seminário contou com uma palestra minha e da Profa. Dra. Elizabeth Harkot-de-La-Taille, na última sexta-feira, 22/11. Para acessar o conteúdo da palestra, clique aqui.

A conferência, intitulada, Semiótica e mídia: uma abordagem tensiva do fait divers, o mesmo nome da tese, assim se resume:

Nesta conferência, apresentaremos alguns elementos de nossa pesquisa de doutorado, realizada na Universidade de São Paulo, entre 2009 e 2013, com estágio doutoral na Université Paris 8 Vincennes-Saint-Denis, entre 2010 e 2011. Sob orientação do Prof. Dr. Waldir Beividas (USP) e supervisão durante o estágio no exterior do Prof. Dr. Denis Bertrand, nossa investigação se ocupou da análise e da teorização do fait divers, categoria jornalística que se refere a eventos de caráter fortuito, com base nas proposições da semiótica de vertente tensiva. O corpus da pesquisa constituiu-se primordialmente da cobertura do Caso Isabella Nardoni, compreendido sob a rubrica dessa expressão, realizada pelo Jornal Nacional nos meses de março, abril e maio de 2008. Também compuseram o corpus da investigação outros relatos jornalísticos dessa natureza, tanto os que se pautaram por uma curta duração quanto aqueles que repercutiram na mídia por um período considerável. Em relação ao caso aludido, impôs-se a questão teórica que se refere à pouca duração que um relato noticioso de tal categoria costuma ter. Ao contrário, ele arrastou-se por meses a fio no primeiro semestre de 2008, mantendo, não obstante, uma elevada carga tímica. Dessa forma, procurou-se buscar nos mecanismos do discurso as estratégias usadas pelo enunciador “Jornal Nacional” para “extensivizar” a intensidade do Caso Isabella Nardoni, o qual se baseia numa estrutura acontecimental e que, por definição, deveria ser muito intenso, mas pouco extenso. Para tanto, a pesquisa se valeu dos seguintes eixos analíticos: concessão e fidúcia, duração e intensidade, a paixão coletiva da comoção e, por fim, relações intertextuais e interdiscursivas que o texto em análise permite estabelecer com outros textos/discursos. Os referidos eixos cumpriram, cada qual, a tarefa de responder parcialmente o porquê de, a despeito do transcurso da temporalidade, a intensidade em torno do caso enfocado ter sido duradoura.


Notícias de minha tese de doutorado no Portal Imprensa

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Com um certo atraso, publico aqui que o Portal Imprensa publicou uma matéria sobre minha tese de doutorado. 

Na pesquisa, analisei o discurso midiático sobre casos de grandes repercussões, em especial o Caso Isabella Nardoni. Isabella_Nardoni250

“O telespectador não conseguia, por mais que quisesse, absorver o impacto daquelas informações monstruosas, uma vez que outras novas informações não paravam de surgir ou de reverberar”, diz o pesquisador, jornalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), Conrado Mendes, a respeito do caso Isabella Nardoni, morta em 2008.

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.


Sobre “Anna Karenina” e “Para Roma, com amor”: quanto maior a expectativa…

imagesEsses dias assisti a “Anna Karenina”, que estava louco para ver. Não gostei. O diretor, Joe Wright, lançou mão de uma teatralidade desnecessária, talvez para disfarçar um orçamento muito aquém do que o filme merecia. O trenzinho estilo autorama para fazer as vezes de trem na neve representa bem o que estou dizendo. A passagem de uma cena para outra, fazendo-se uso de um palco também não faz muito sentido. Se o diretor quisesse um filme de atores, que abandonasse toda e qualquer plasticidade – da qual faz uso exagerado e sem propósito (vide as cenas de dança, meio “Matrix”) – e fizesse do palco um cenário único a la Dogville. Esse hibridismo não me convenceu e me pareceu mais uma picaretagem do que uma escolha consciente.  Quanto aos atores, Keira Knightley está mais para uma periguete inconsequente do que para a personagem que intitula o livro de Tolstói, densa e cheia de contradições. Aaron Johnson não tem physique du rôle de um Vronski. Jude Law segura bem o seu Alexei, embora sem nenhum brilhantismo. A história de Kitty e Liévin apenas tangencia o enredo do filme, o que é até compreensível, em vista das mais de 800 páginas da obra, mas, em todo caso, é uma pena. É sempre complicado transpor para as telas uma obra literária, ainda mais um clássico da literatura mundial. Fica o desafio a um diretor que se arrisque a ponto de criar “Anna Karenina” no cinema à altura do livro.

pararomacomamorcortadoEm compensação, o pouco elogiado “Para Roma, com amor”, último filme de Woody Allen, me levou às gargalhadas. Um filme leve, inteligente, pra cima. Comparou-se este às duas últimas fitas do diretor americano: “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia-noite em Paris”. Não acho que seja o caso de comparar. Acho, inclusive, que “Para Roma, com amor” é melhor que “Vicky Cristina…” e tem uma pegada muito diferente de “Meia-noite…”, portanto, é assistir e se divertir. Humor inteligente para aqueles que apreciam.

Moral da história: quanto maior a expectativa…


Sufixos, -ismos, -dades, quanta bobagem?

Ao ler o título do post do blog sobre TV de Patrícia Kogut, de O Globo, publicado em 28/5/2012, não resisti. Faz tempo que não escrevo neste espaço, mas há momentos em que não escrever é impossível. O título do post é: “’Avenida Brasil’ trata homossexualismo sem caricaturas”. Fiz o seguinte comentário:

Prezada Patrícia Kogut:
Sabemos que palavras não estão isentas de ideologia. Pelo contrário: é por meio delas que construímos o sentido de nossa realidade, que só o é na e pela linguagem. “’Avenida Brasil’ trata homossexualismo sem caricaturas” exemplifica isso perfeitamente. Sabe-se, e não é de hoje, que o sufixo “ismo” está relacionado a patologias: desde 1993, a OMS não considera o “homossexualismo” doença. O sufixo “dade”, por sua vez, expressa a ideia de estado, situação. Não se trata, portanto, de uma simples diferença taxionômica (homossexualismo/homossexualidade) mas de uma mudança de ponto de vista, inclusive política. No intuito de fazer uma crítica (positiva) da forma como a novela em questão aborda o “homossexualismo sem caricaturas” – tal como diz o texto – o autor acaba criando uma contradição interna. Portanto, ainda que ingenuamente, se utilize o sufixo “ismo” para se referir à condição do indivíduo que se sente atraído por outro do mesmo sexo, acaba-se reforçando um preconceito secular.

Eis que alguém de nome Luiz replicou:

É verdade, não é mais politicamente correto usar o termo homossexualismo, pois os militantes da causa dizem que isto denotaria doença e que o certo seria usarmos o termo homossexualidade. Ora pois, aí eu fico pensando: Quer dizer, então, que termos como cristianismo, budismos, judaísmo, ateísmo e tantos outros querem nos remeter à ideia de que os seguidores dessas crenças seriam doentes? Não estão distorcendo um pouco as coisas, não? Penso que deveriam focar em ações mais relevantes e pararem de perder tempo com sufixos inúteis.

Não consegui me calar e acabei lhe respondendo:

Respondendo ao Luiz ( 28/5/2012 – 14:57), de fato, é uma perda de tempo a gente se importar com sufixos e essas bobagens sobre a linguagem. “Crente” e “evangélico” é a mesma coisa; “favela” e “comunidade” também. Por essa perspectiva realista e ingênua, a categoria “homem” se opõe à categoria “veado”, e assim por diante. Porque, no final das contas, preocupar-se com questões relativas à linguagem é uma perda de tempo! Deveríamos mesmo é nos preocupar com a Educação no Brasil, para que, quem sabe, um dia, sejam formados mais cidadãos com capacidade de reflexão, de assistir TV e ler jornal a partir de uma perspectiva crítica, interessados em formar um país mais igualitário, menos homofóbico, menos misógino. De fato, linguagem e ideologia não tem nada a ver. Vamos nos preocupar com coisas mais relevantes.

É isso. Até a próxima.


Convite

Em 09/11/11, às 20h, na Maison du Brésil, Cité Universitaire de Paris, França, apresento alguns elementos da pesquisa que desenvolvo no doutorado sobre semiótica e mídia no Ciclo de Conferências da APEB-Fr. O título da exposição é: Semiótica francesa aplicada a textos audiovisuais: considerações sobre a cobertura midiática do Caso Isabella Nardoni.

O Ciclo de Conferências da APEB-Fr, organizado pela Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França em parceria com o Groupe Interdisciplinaire des Recherches sur le Brésil (GRIB), é um encontro quinzenal, em que os estudantes e pesquisadores brasileiros apresentam as suas respectivas pesquisas em curso. Estas ocasiões permitem, por um lado, o intercâmbio entre os campos de pesquisa atualmente estudados pelos brasileiros na França e, por outro lado, o enriquecimento da pesquisa em si através dos comentários e críticas dos colegas e professores presentes.

Segue o convite:


A Clô é pop

Clô Hayalla, personagem de Regina Duarte em “O Astro” (Divulgação/ TV Globo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje vou falar um pouco sobre o remake de “O Astro”, cujo último capítulo foi exibido pela nesta sexta-feira. A novela abriu um novo horário para as produções do gênero às 23h na Rede Globo e foi considerada um grande sucesso. Com a produção impecável, o folhetim atualizou e recriou, pelas mãos de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, os dramas da história de Janete Clair, exibida originalmente entre 1977 e 1978. São, portanto, quase 33 anos de diferença entre a primeira e a segunda versão. Não assisti à primeira, mas, pelo que li a respeito, a novela conseguiu manter a mesma história, contada, entretanto, de forma mais acelerada: 185 capítulos da primeira versão foram condensados em 64 na segunda. Aceleração, portanto, justificável.

Em um post futuro, quero tratar justamente de algumas particularidades que me chamaram atenção nesse remake. Refiro-me a estruturas da narrativa mantidas que, por sua vez, não fazem muito sentido se pensamos no nível do discurso, aquele em que incidem as escolhas ideológicas do enunciador. Em outras palavras, os valores que circulam em sociedade nos dias de hoje não justificariam certas escolhas de alguns personagens ao longo da trama, escolhas essas que, na primeira versão, eram plenamente justificáveis. Sabemos que a ficção não precisa imitar a realidade e que determinados recursos narrativos são necessários para a estruturação da novela. Meu questionamento é outro: o descompasso entre narrativa e discurso. Deixemos isso para uma discussão posterior.

Aproveitando o calor da hora, quero falar sobre o último capítulo de “O Astro”. Ainda hoje, enviei um “tuíte” ao autor de Almanaque da Telenovela Brasileira e responsável pelo site e blog Teledramaturgia, Nilson Xavier, perguntando-lhe sua opinião sobre o último capítulo, pois, para mim, algumas coisas não se encaixaram ali. Reporto-me especificamente à revelação da identidade do assassino de Salomão Hayalla: em cena muito bem interpretada, Clô Hayalla, vivida por Regina Duarte, afirma ter sido a assassina do marido, personagem de Daniel Filho. Na hora pensei: Clô virou ícone pop! Suas caretas e gritos, seus jargões, seu jeito exagerado, beirando o kitsch, fizeram de Clô Hayalla a grande diva de “O Astro”. Essa quase caricatura revelou-se mais astuta do que se presumia, surpreendendo aos telespectadores – a mim pelo menos.  Por isso gostei do fato de Clô ter sido a principal assassina da novela  (ao lado do mordomo, que antes envenenara o patrão, e do irmão, que, em seguida, dera-lhe uma coronhada na cabeça).

Passada essa euforia momentânea, fiquei tentando ligar os pontos. Felipe Cerqueira (Henry Castelli) foi preso e morto na cadeia a mando de Samir Hayalla (Marco Ricca), tudo indicando queima de arquivo. Supunha-se então que Felipe sabia demais a respeito da morte de Salomão, informações essas que seriam prejudiciais a Samir, o grande vilão da trama, oponente do protagonista Herculano Quintanilha (Rodrigo Lombardi). Ou seja, por essa razão, o nome de Samir deveria estar direta ou indiretamente envolvido na morte do irmão. No final, revelou-se que os três assassinos (Clô, o mordomo Inácio, e o irmão Youssef) tiveram motivações distintas e nenhuma se relacionava a Samir. Clô matou o marido porque o considerava “um mooooonstro!”; o mordomo envenenou o patrão porque sempre o odiou; o irmão banana deu a tal coronhada a mando da esposa com orgulho ferido por ter sido ofendida pelo cunhado e chefe do clã.  Sendo assim, a morte de Felipe, a mando de Samir, foi motivada por qual razão? Vingança por não ter lhe entregado alguns documentos que incriminariam Herculano? Motivo pouco forte naquele momento.

Claro que isso também pode ter sido uma forma de confundir o telespectador, mas também de subverter uma estrutura lógica que subjaz ao “quem matou”. Durante todos esses capítulos, os inspetores Eustáquio (Daniel Dantas) e Elizabeth (Úrsula Corona), ao ir juntando as peças do quebra-cabeças da morte de Salomão, conduziram ao telespectador à lógica do “se… então…”. Tendo sido Clô a assassina, essa lógica cai um pouco por terra. Não que toda história deva obedecer a essa estrutura lógica, é óbvio que não.  Muitos casos podem, ao contrario,  pautar-se pela lógica do “apesar de”, o que, a meu ver, no entanto, não se aplica à trama de “O Astro”.

Mais uma coisa: no penúltimo capítulo, Herculano está em fuga na casa dos Hayalla e começa a ter uma série de visões: sobre o fato de que alguém ali já o havia denunciado, que Samir era o responsável pela morte de Valéria, assistente de Herculano. Nesse momento, Clô implora a ele que revele quem foi o assassino de Salomão. Ele não consegue ver. O mistério se resolveria no dia seguinte. É curioso que a  própria Clô tenha pedido com tanta veemência a Herculano, possuidor de supostos poderes de vidência, que revelasse o nome do assassino de Salomão Hayalla, ou seja, o dela própria! Será que ela não acreditava nos poderes do bruxo ou tinha tanta confiança nele a ponto de acreditar que Herculano não fosse capaz de delatá-la?

Novela é novela, não precisa imitar a realidade, já dissemos. Entretanto, determinados desfechos, como esse, que nos obrigam a “reler” novamente a trama para buscar uma nova compreensão dos fatos, demandam, em contrapartida,  uma boa dose de coerência interna. A coerência, portanto, não precisa se estabelecer com a realidade, mas na própria estrutura interna da obra.

Seja como for, se, por um lado, faltou um pouco de coerência no final de “O Astro”, por outro, sobrou carisma para Clô Hayalla, que, com suas caras e bocas, e, agora, como “a assassina de Salomão Hayalla”, entra definitivamente ao time das vilãs mais lembradas da TV brasileira.


“Mea Culpa”

Manter um blog não é das tarefas mais simples, principalmente quando temos outras atividades de cujos prazos somos reféns! O principal “algoz” a que me refiro é a tese de doutorado, tarefa a que tenho me dedicado exclusivamente nos últimos meses.  Essa é uma mea culpa pelo fato de o Mídia & Sentido ter ficado durante algum tempo sem novas postagens. Por outro lado, nunca quis ter um blog do qual fosse escravo, o que fatalmente me obrigaria a escrever sobre qualquer coisa apenas para manter uma atualização periódica. Concebi o Mídia & Sentido para escrever quando sentisse necessidade: tanto aquela demandada pelo tema, mas principalmente quando eu sentisse que preciso mesmo escrever sobre alguma coisa. Por essa razão, aproveito o início de tarde desse domingo frio e nublado nos meu último mês em Paris para arejar a cabeça e falar sobre outro assunto que não seja o da bendita tese.


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